Mão na Mamma

Que me desculpem o garfo e a faca. Bom mesmo é comer com a mão. Torçam o nariz aqueles que não passam sem um talher para peixe, quem prefere colher de sobremesa ou quem luta com hashis. Nada, mas nada mesmo, é melhor do que comer qualquer coisa com a mão.

Defendo o uso comedido dos talheres e a socialização da comida. Poderia até criar um movimento, lançar um manifesto, mas isso é coisa de gente que não se alimenta direito. E são infinitas as possibilidades para quem, como eu, de vez em quando, se dá ao luxo de pendurar garfos, facas e colheres.

Aprendi desde cedo a gostar de coisas simples na cozinha. Culpa disso eram as comidas da minha avó italiana á beira do fogão à lenha. Do prato direto para as mãos pequenas dos netos. A ordem que os famintos comensais seguiam era simples: nas massas, as facas estão proibidas. O garfo e a colher não. É só uma ajudinha para o molho envolver bem aquela mistura de farinha e ovos.

A massa era, para todo mundo, a grande estrela dos almoços de verão em Santa Catarina. Menos para mim. Trocava um belo prato de macarronada da nonna por um pedaço de tomate maduro bem temperado com azeite, sal, manjericão e alho. A colher era um pão sovado quentinho, que minha avó tirava do forno enquanto meu avô fazia a mistura com o que eles chamam de “pomodoro”, o fruto de ouro.

Depois que a gente cresce, cria o péssimo hábito de tentar encontrar, de todo o jeito, o mesmo gosto de coisas boas em que tropeçou ao longo da vida. No Rio de Janeiro, longe de Santa Catarina e longe, principalmente, da Itália, ficava difícil achar tomates italianos da horta, pão italiano e todas as coisas italianas que me lembravam do gosto bom de férias.

Eu estava atrás das bruschettas. E pão com tomate, na cidade grande, fica metido à besta. Vai pro forno para gratinar e é regado com azeite aromatizado com ervas de sei-lá-onde. Definitivamente, nem de longe traziam para perto de mim a simplicidade da minha avó.

Por isso, há uns oito anos eu tropecei de novo no pão com tomate que eu gostava. Amigos me falaram de uma cantina, em Laranjeiras, quase no Cosme Velho. “Mamma Rosa” era o nome. “É o melhor restaurante com o pior atendimento”, “Não, é o pior restaurante e o melhor atendimento”. “Vai lá, não importa. O Cosme Velho só tem um restaurante mesmo”. Foi assim que eu resolvi tentar. Pedi, claro, a bruschetta antes de tudo. E a minha surpresa foi não ter surpresas. Pão, tomate, manjericão, azeite e alho direto da minha memória para a mesa com as indefectíveis toalhas quadriculadas.

É fácil me encontrar lá. Cercada de boas lembranças e de boas companhias. E vendo o sorriso de quem acabou de tropeçar no “ouro” da nonna.

Para comer com a mão, se sujar  e lembrar de coisas boas sempre: 

[[Bruschetta]]

4 tomates italianos maduros

Azeite de boa qualidade a gosto

Sal

Pimenta do reino (meus avós não me deixavam saber o quanto era bom)

Manjericão 

Misture tudo em um prato fundo e coma com pão italiano.

Tomate e Manjericão

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