Memória afetiva

Pode parecer uma bobagem sem tamanho. Soa até estranho dizer isso:  “- Mas vocês acham que certos recipientes podem alterar a percepção do sabor?”

Não, não tô falando de deixar aquele gosto de plástico ou ranço de metal no fundo da língua. Tô indo um pouco mais além. É a sensação que um prato quadrado provoca na maioria das pessoas. A comida parece que desce meio…quadrada. E beber um bom vinho português em copo de geléia de mocotó? Longe de mim querer posar de enólogo ou disputar queda de braço com o Renato Machado. Mas “cada um com seu cada um”.

Tive essa sensação dobrada na última vez que fui ao supermercado ao lado de casa. Lá vou eu pilotando meu carrinho pelas gôndolas quando me vejo com 7 anos de idade. Putz, a reação foi automática! Lá, paradinho no alto da prateleira, estava o casal. Ele, moleque, tinha o boné azul meio de banda. Olhava pra ela com olhos e língua de cafajeste. Ela, do alto da elegância, rebatia com indiferença e sorria com seu ar de menina-moça.

Comprei. Não tinha jeito de não comprar. Desculpem. Fui infantil, eu sei. Dessa vez não deu.

Lugar de sal era ali. Nenhum outro saleiro tinha tanto savoir-affair quanto eles. A simpática dupla de pequeninos já repousa na prateleira da minha cozinha. Têm o status de  souvenirs de uma época em que eu descobri que o melhor do ovo cozido era o salzinho.

ps: A “Sal Cisne” sempre foi líder na venda de sal refinado no Brasil. No início da década de 80 disparou seu faturamento ao lançar os dois pequenos saleiros. Toda casa de respeito tinha pelo menos um deles na mesa. Reza a lenda que a idéia do produto foi de um funcionário que todos os dias levava somente um par de ovos cozidos para almoçar.

ps2: Ah, se for comprar, compre os dois. Dizem que dá má sorte separar o casal.

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